Enfim, a Medicina está mudando!

“As enfermidades são muito antigas e nada a respeito delas mudou. Fomos nós que   mudamos ao aprender a reconhecer nelas o que antes não percebíamos”                                                                                                                                                                                                              Charcot

 

             Há pouco tempo assisti a um web meeting (palestra) sobre glaucoma e um dos palestrantes comentou que num futuro não muito distante, o oftalmologista estaria prescrevendo para o seu paciente, alem de medidas terapêuticas cabíveis em cada caso, orientações sobre mudança de hábitos alimentares e prática de exercícios físicos. Para quem não sabe, há não muito tempo atrás, o oftalmologista era visto pelas outras especialidades como “menos médico”. Assim como o ortopedista e o otorrinolaringologista.

Creio que nós, dessas especialidades, realmente ficávamos tão absorvidos com a multiplicidade de doenças que nunca havíamos visto ou ouvido falar durante a nossa formação anterior (clinica), que esquecemos, durante muito tempo, de perceber a conexão do olho, por exemplo, com o restante do organismo. Um ou outro médico nunca perdeu essa percepção.

 

Mas a maioria de nós foi se afastando da visão do todo, a ponto de poucas vezes tratar o paciente de forma global, ao tomar ciência das suas queixas não oftalmológicas e buscar uma possível relação delas com a disfunção ocular (p.ex.). Deixamos de oferecer um cuidado multidisciplinar para seu paciente, em outras palavras. Nós no máximo referíamos o paciente ao especialista que julgávamos ser necessário e ponto final. Não havia interação, não havia troca de idéias a respeito da medicação a ser instituída e suas repercussões sobre outros órgãos ou sistemas.

 

Estou usando a forma verbal errada: isso ainda acontece muito hoje. Quantas vezes examinamos pacientes com queixa de dor de cabeça (cefaléia), não encontramos causa oftalmológica para ela e após uma conversa breve com o paciente descobrimos que ele trocou de cardiologista, e este então mudou sua medicação anti-hipertensiva. Apesar da pressão arterial estar se mantendo em níveis normais ele, cardiologista, justificara a troca por um medicamento novo, “melhor”, porque “o antigo quase não era mais usado hoje em dia”.

 

Acontece que o remédio que o paciente vinha usando era um agente betabloqueador, droga utilizada tanto na hipertensão arterial quanto na enxaqueca (migranea). Enquanto o individuo estava fazendo uso daquela medicação estava também “evitando” a sua enxaqueca, que reapareceu quando mudaram o seu remédio. Ao alterar a  medicação, a profilaxia (prevenção) da cefaléia deixou de ser feita e o paciente voltou a se queixar de dor de cabeça. Se o cardiologista tivesse se inteirado da coexistência das duas doenças, com certeza não teria feito a troca do remédio. E, na hipótese do médico saber da história de migranea, deveria pelo menos ter alertado o paciente e solicitado que retornasse, caso o sintoma reaparecesse.

 

Como essa, muitas outras vivencias diárias apontam para o fato de que nós, oftalmologistas, estamos realmente distanciados da prática clínica, cardiológica, neurológica e de tantas outras especialidades. E vice-versa.

 

A relação médico-paciente é que estabelece o grau de confiança necessário para a fidelização ao tratamento e a melhora do paciente. E o interesse do medico pela saúde geral do paciente é o primeiro passo nessa direção. Afinal, estamos tratando da Dona Fulana e não do olho da Dona Fulana. Somos médicos, responsáveis pela saúde, como um todo. E, não poucas vezes, um pequeno detalhe que percebamos pode fazer toda diferença para o paciente. Pode melhorar muito sua qualidade de vida e até mesmo antecipar um diagnostico que só seria feito quando fossem pequenas as chances de tratamento, levando então a um desfecho negativo.

 

A percepção desta distorção está levando os médicos a adotarem um  olhar multidisciplinar no cuidado de seu paciente, além da constatação da necessidade de mudança de paradigmas. Todos nós médicos, independente da especialidade, somos co-responsáveis pela saúde de quem nos procura.

 

O web meeting a que me referi discutia a importância da micro-circulação (e sua regulação) na identificação dos pacientes de risco (para desenvolvimento da doença glaucomatosa) e no controle efetivo da pressão do olho. Como conseqüência, a importância constatação da necessidade de consenso entre oftalmologistas e cardiologistas. Mais ainda, da necessidade de integração das várias especialidades médicas em um movimento igual ao que vivemos neste mundo globalizado. E ainda no sentido oposto ao que se observa hoje na medicina, em que o individuo foi “fatiado” em muitas partes e cada área do saber médico se ocupa de uma delas, enquanto poucos de nós sabemos unir os vários retalhos para formar um todo eficiente.

 

Uma das melhores definições de integração: a combinação de partes que trabalham isoladamente, formando um conjunto que trabalha como um todo. O objetivo seria a coordenação das atividades de vários órgãos, em busca de um funcionamento harmonioso. Além dessa integração, seria mais que bem-vinda uma interação maior entre nós, médicos. Com um olhar mais global, menos reducionista e uma atuação mais fundamentada no amor à arte de cuidar (da saúde) do outro.

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