MÉDICOS REPENSANDO A MEDICINA  

 

Algumas opiniões há muito conhecidas:

 

               “…no mundo atual tão doente, o grande desafio para um médico é tornar-se um “promotor de saúde da comunidadeno sentido mais amplo. Para que os futuros médicos sejam melhor preparados para enfrentar os problemas atuais de saúde, há necessidade de mudanças profundas em nossas faculdades de medicina. Os médicos precisam aprender a trabalhar com a comunidade inteira, não apenas com indivíduos doentes. Precisam aprender compartilhar seus conhecimentos, a desmistificar suas habilidades…” Dr. David Werner é diretor de HealthWrights, Workgroup for People’s Healths and Rights  e coordenador regional do Conselho Internacional de Saúde dos Povos para a América do Norte na Califórnia. Ele apresentou esta palestra em 1990, durante o 40º encontro anual da Associação Americana de Estudantes de Medicina, Arlington, VA, EUA.

               Recentemente em um evento oftalmológico pude confirmar:

Quanto mais jovem o médico, mais invasiva e reducionista é a sua visão de Medicina, menos ele vê o todo, ocupado que está em tratar a doença e não o doente! Mas a culpa não é dele. A construção do conhecimento é antes de tudo papel da Instituição de Ensino. Porém, quem ensina? O médico mais velho, mais experiente. Este com certeza já se questionou (ou foi questionado) a respeito da falência do modelo atual. Mas então porque apenas alguns de nós assumimos a necessidade de mudança? Se o próprio indivíduo leigo, já busca (ativamente) alternativas ao modelo oficial, por que continuamos a ignorar o movimento crescente em direção à humanização da medicina e contra o reducionismo cientifico?

A esse respeito já foi dito:

“…  A maioria das faculdades de medicina do mundo prepara o médico não para a saúde da população, mas para se dedicar a um exercício da medicina que é cego para tudo que não seja a doença e a tecnologia para tratar dela…Dr. Halfdan Mahler Ex-Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde, diretor do Primeiro hospital de ensino para medicina natural na Grã-Bretanha.

 

O indivíduo não deve esquecer a importância que tem na manutenção da sua própria saúde. Tem necessidade de abdicar da atitude passiva que sempre adotou em relação ao adoecer e buscar uma maior interação com o meio em que vive: a informação é ferramenta fundamental nesta cruzada pela saúde. Os meios de comunicação (livros, jornais, internet e TV) estão à sua disposição. Além disso, não deve abrir mão de obter informação da fonte mais fidedigna e igualmente interessada em seu bem estar: seu médico assistente.

Mas,

“…A ideia de assumir a responsabilidade por sua própria saúde é tão estranha à maioria das pessoas que é assustador. Quão mais confortável é por nossas vidas nas mãos de outrem, como o médico”.  Dr. George Spaeth, médico oftalmologista do Wills Eye Hospital.

A MEDICINA DA SAÚDE está ao seu alcance e a MEDICINA DA DOENÇA é do que nos ocupamos nós, os médicos.

 “…doença é da responsabilidade do médico, dos cuidados da enfermagem, da organização hospitalar e da sociedade como um todo organizado, porém a saúde é responsabilidade de cada um de nós…”

                “…saber da tendência natural que o corpo tem à saúde e como é válido o principio da homeostase, que significa equilíbrio e tendência natural à saúde…”

               “…a humanidade está doente física ou emocionalmente porque está vivendo fora de seus padrões naturais, e estes doentes muitas vezes não têm conhecimento de seu estado de saúde, tornando-se dependentes de produtos químicos e farmacêuticos…”  Dr.Antonio Quintanilha – “Coluna Vertebral: segredos e mistérios da dor”- AGE Editora, 2002

 

Contudo, esta realidade está mudando. Em uma matéria da revista Superinteressante edição 287 (Janeiro de 2011), foi comentada a quebra do monopólio que o médico detinha sobre o conhecimento de saúde. Em parte, pela mudança de comportamento do paciente, que agora busca através da internet saber mais sobre sua saúde. Em parte, pela mudança de comportamento do paciente, que agora busca através da internet saber mais sobre sua saúde. Existem várias ferramentas de busca destinadas a analisar sinais e sintomas para definir possíveis diagnósticos além de dúvidas discutidas em redes sociais. Algumas ferramentas são de procedência bastante duvidosa. Outras são aprovadas pela instituição “Health on the Ned”.

A matéria, que eu sugiro que leiam na íntegra, reproduz uma frase de autoria do médico americano Dr. William Hanson em “The edge of the Medicine”. Livro ainda sem tradução no Brasil, cujo título em português seria algo como “O Limite da Medicina”.

A frase: “Desde Hipócrates nos acostumamos a ficar em uma situação de superioridade diante dos pacientes. Agora eles estão mais bem informados e críticos”. Além dos médicos, outros vêm ocupando os espaços que a eles sempre pertenceu. Os nutricionistas, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e todos mais que tornam possível a manutenção da higidez do indivíduo. É o cuidado multidisciplinar que garante a homeostasia tão buscada.

Um outro médico citado na matéria é o Dr. Stephen C. Schimpff, autor de “The Future of medicina”, outro livro ainda não traduzido para o português. É dele a frase: “Do ponto de vista do doente, a nova medicina vai ser personalizada. Para os profissionais da área, será marcada pelo trabalho em equipe em um nível inédito”.

A matéria da Superinteressante cujo título é “Médicos na Encruzilhada” fala das mudanças previstas para daqui a quinze ou vinte anos. Sugere a telemedicina ou tele saúde. Aqui no Brasil já existe o Comitê executivo de Telemedicina e Tele saúde do Ministério da Saúde. A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) inclusive oferece desde 1998 a disciplina de Telemedicina.

As mudanças virão, ou melhor, já estão aí, é fato. Mas o que penso é que agregar tecnologia para melhorar resultados em cirurgias e procedimentos, reduzir tempo de hospitalização e aumentar a eficiência diagnóstica apesar de muito atraente e necessário, não deve ser o nosso único foco.

Parte da mobilização de recursos financeiros para implantação deste novo modelo deveria ser destinada a alterar bancos de dados existentes em Medicina. Agregar sinais anatômicos, características antropométricas e estratégias de manutenção de saúde, das mais variadas origens antes não reconhecidas pela medicina ortodoxa. Quanto mais ferramentas agregarmos mais assertivos poderemos ser em nossas condutas. Mais saúde e menos doença será o resultado. Os gastos, então serão cada vez mais focados na prevenção em vez da medicação em função da eficiência desta estratégia e pelo aumento estatístico inquestionável da qualidade de vida. Por que não investir nessa possibilidade?

 

               “Embora os avanços tecnológicos dos últimos séculos tenham ampliado a expectativa de vida, estamos hoje mais doentes que há vinte ou trinta anos. Pode parecer paradoxal…parte da resposta está na facilidade de diagnóstico…a outra, quase sempre ignorada por médicos e pacientes, é que nosso estilo de vida e nossos hábitos vêm prejudicando enormemente o bem-estar de todos nós…além de desprezarmos cuidados simples com o corpo e a alimentação…” Dr.Nicholas Schor – “As doenças que você tem … e não sabe” – MG editores, 2005

 

Nós médicos, com certeza e, cada vez mais, queremos ajudá-lo na tarefa de manter a sua saúde. Apenas tenha um pouco de paciência conosco (médicos) porque apesar de bem-intencionados ainda somos muitos com dúvidas a respeito da multiplicidade de opções e de como utilizar tudo que sabemos hoje. Outros ainda manifestam grande ceticismo em relação à eficácia da intervenção médica através de recursos outros que não a medicação alopática.

O viés não ortodoxo em relação à saúde e ao tratamento do indivíduo não é tolerado pela maioria dos médicos. A comunidade cientifica se fecha em torno da “medicina baseada em evidencias” em detrimento de um olhar mais generoso em seu entorno. Ao conhecimento milenar adquirido em todas as áreas relacionadas à saúde não é dado sequer o benefício da dúvida.

E esta integração entre as “medicinas” poderia ser tão bem explorada! O reducionismo medico-cientifico aliado à medicina do todo (meio ambiente e ser humano “psico-fisico-social”) contemplariam as múltiplas manifestações e causas de ausência de saúde. Menos iatrogenia e provavelmente mais qualidade de vida é o que teríamos no longo prazo.

Muito se faria pela saúde se pudéssemos (re)pensá-la sob  novos paradigmas.

 

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