PRIMUM NON NOCCERE

”  …antes de tudo, não causar dano…”

Hipocrates 450 a.c.

 


               A medicina e nós, médicos e leigos

             A frase Primum non noccere, atribuída a Hipócrates, lembra ao médico de que ele deve sempre levar em consideração o possível dano que qualquer intervenção pode gerar.

               É necessário um viés mais humanístico ao lidar com a saúde de nossos pacientes. É necessário ainda sermos menos condescendentes com nós mesmos (médicos) e mais com prometidos com o resultado final, sempre aliado ao menor dano possível.

               “Desde pelo menos 1860, ‘primum non noccere’ tem sido usada para expressar esperança, intenção, humildade e reconhecimento de que mesmo a boa intenção dos atos humanos pode ter consequências indesejáveis” (Wikipédia –The free Encyclopedia)

               “The physician must…have two special objects in view with regard to disease, namely, to do good or to do no harm” (Hippocratic Corpus in Epidemics). Em português, algo como “o médico deve ter, em relação à doença, dois objetivos em mente: fazer o bem ou (e) não causar nenhum dano.”  The origin of “primum non noccere”,  Bristish Medical Journal Setembro, 2002

 

               O médico e o tratamento

 

               A medicina e suas formas terapêuticas, quaisquer que sejam elas, devem sempre ser pensadas dessa forma: um recurso pontual imprescindível ao órgão/corpo doente, que sempre implica em risco calculado e deve ser absorvido tanto pelo médico (ao escolher a melhor forma atuar naquele momento) quanto pelo paciente. Este, deve entender e conhecer as limitações   do conhecimento cientifico quanto às projeções futuras, a longo prazo, assim como todas as alternativas disponíveis para cada situação de doença e conversar com seu médico a respeito delas e de suas dúvidas, a cada momento.

               Temos que realizar procedimentos que são necessários, mas ao mesmo tempo, temos que ter sempre em mente que devemos esperar reações às nossas ações e nos prepararmos para melhor agir nesses momentos e bem equilibrar essa equação (ação-reação).

               O médico e o diagnóstico

               Nós médicos devemos estar atentos para identificar as possíveis armadilhas do raciocínio médico na identificação das hipóteses diagnosticas prováveis em cada caso.

               Há pouco tempo tive a oportunidade de aprender mais sobre a arte de fazer diagnósticos com um caso de um paciente. A linha de condução do caso foi alterada quando não solicitei que o paciente retornasse com os resultados de exames que eu havia pedido após a primeira consulta. Os laudos me foram passados por telefone, e defini minha conduta baseada neles, embora mais de 10 dias tivessem transcorrido. Baseada nos resultados solicitei um novo exame (RNM) e encaminhei para um parecer neurológico.

               Uma nova visita médica com nova avaliação da função visual e do fundo de olho (evolução dos achados clínicos), com certeza teria direcionado mais a busca e talvez evitado o caminho mais longo na identificação do diagnóstico. Daí em diante, um caso que já apresentava alguma dificuldade por não se encaixar no perfil esperado (uma apresentação atípica), polarizou opiniões, tornando menos fácil obter ajuda isenta de preconceito e pré-julgamento.

               Nesse caso houve um retardo no diagnostico, mas isso não modificou o resultado final, felizmente! Mas em um outro cenário, poderia ter significado um desfecho desfavorável.

               Por mais rápido e oportuno que seja a interação via telefone, fax ou internet, em momento algum o médico deve abrir mão do contato pessoal com o paciente. Nele está a oportunidade de acompanhar a doença em seus vários estágios. Este acompanhamento pode fazer toda diferença. Aprendi a lição e gostaria que outros tantos de nós (médicos e pacientes), pudéssemos nos beneficiar deste aprendizado.

               A esse respeito, achei muito interessante e bem construído o perfil sobre erros diagnósticos traçado por uma médica americana em  livro editado este ano (2010):“TODO PACIENTE TEM UMA HISTORIA PARA CONTAR mistérios médicos e a arte do diagnóstico”  Lisa Sanders,MD   Editora Zahar, 2010

               Seguem alguns trechos do livro:

               “O erro diagnostico mais comum na Medicina é, de longe, o fechamento prematuro, quando um médico para de procurar diagnósticos depois de encontrar uma doença que explica a maior parte dos achados, ou todos eles, sem se fazer aquela pergunta essencial: o que mais isto poderia ser? O fechamento prematuro é um dos erros cognitivos mais comuns no processo diagnostico. Neste processo o pensamento cessa quando o diagnóstico é feito”.

               “O conhecimento médico se tornou tão amplo que nenhum ser humano é capaz de absorvê-lo por inteiro – por mais experiência e pacientes que se tenha, por mais livros que se leia, por mais revistas cientificas que se acompanhe. Alguns tipos de erros cognitivos têm suas raízes nessa limitação. Não podemos enxergar o que não sabemos que devemos procurar. E, mesmo que conheçamos uma doença, talvez não pensemos nela se um paciente se apresentar com sintomas incomuns. ”

 

 

 

 

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