O conceito de “raciocínio sábio” e sua aplicação na Medicina

A relação do raciocínio sábio com a maior eficiência no sistema de saúde

 

Uma matéria disponível no Diário da Saúde (link abaixo) fala sobre  o estudo publicado  no Journal of Experimental Psychology (Ethan Kross e Igor Grossmann, Universidade de Michigan) a respeito  de como o distanciamento de uma idéia ou fato pode contribuir para o seu melhor entendimento.

Ela diz que estudos anteriores sugerem que pensar de forma dialética (ao reconhecer que as idéias e certezas de hoje podem mudar amanhã) e assumir uma postura de humildade intelectual (aqui significando a identificação dos limites do próprio raciocínio) são aspectos do que eles chamaram de “raciocínio sábio”.

A matéria informa ainda que Kross já havia demonstrado que “a adoção de uma perspectiva egocêntrica – imaginar que os eventos estão se desdobrando imediatamente à sua frente – faz com que processemos a informação de forma diferente do que quando adotamos uma perspectiva distanciada – ver-se como um observador distante dos acontecimentos”.

Utilizando o mesmo raciocínio podemos entender porque a prática médica atual, centrada na especialização cada vez mais freqüente (e mais cedo) do profissional da saúde, pode ser responsabilizada pela sua menor assertividade. O tempo gasto na identificação do diagnóstico e os custos envolvidos neste processo comprovam a falta de eficiência desse tipo de olhar. Mostra que deixamos de ver o quadro geral e nos fixamos no detalhe.

É o que acontece, por exemplo, quando um cardiologista opta pela troca da medicação de um paciente, desconsiderando o fato da droga em uso servir tanto para a hipertensão arterial quanto para a sua enxaqueca (migranea). A troca, mesmo baseada em evidencias clinicas recentes a favor de medicação nova, não leva em consideração outros fatores importantes na manutenção da saúde desse individuo. Assim ele voltará a se queixar de dor de cabeça e ao sair do seu equilíbrio anterior irá buscar em outros especialistas (pelo menos o neurologista e o oftalmologista) a causa do sintoma que voltou a incomodá-lo.

Ou ainda quando deixamos de pensar no mais simples e buscamos o diagnóstico menos provável antes de esgotarmos as outras possibilidades apenas porque ignoramos dados importantes de anamnese ou exame físico. Isso por que nossa visão acurada do micro embota o reconhecimento de pequenos (grandes) detalhes do macro que apenas surgem com o distanciamento do foco sob pesquisa. Na (super)especialização acabamos perdendo a capacidade (e/ou habilidade) de reconhecer o todo, definido pelo conjunto de muitos detalhes mas que para ser colocado em perspectiva exige distanciamento. Por sua vez, o generalista não é capaz de estimar esses mesmos detalhes com a precisão do especialista.

Por outro lado, os sistemas de saúde que privilegiam o generalista e exigem que o encaminhamento do indivíduo ao especialista só aconteça por intervenção do “clinico geral” (como em alguns países) pecam da mesma forma (maior tempo na identificação do diagnóstico), mas por não serem capazes de ver o detalhe em meio ao todo. Falta o treinamento do especialista, sua capacidade de “pinçar” “o” aspecto particular que o diferencia do geral.

Os dois (generalista e especialista) são necessários, mas numa avaliação simultânea, não em momentos diferentes, como costuma acontecer. Isso nos pouparia tempo e dinheiro além de, ao aumentar a eficiência do sistema, ser capaz de lidar com a demanda gerando maior satisfação do usuário e evitando o colapso dos serviços de saúde.

Equipe multidisciplinar é sinônimo de um atendimento mais eficiente!

Medicina não é mais (se é que algum dia já foi, de verdade) uma profissão com assinatura individual. Aqui não deve existir atividade “solo”. Deveríamos estar e pensar em grupo, médico generalista e especialistas reunidos num mesmo espaço, uma policlínica (não apenas no nome, mas de fato) privilegiando uma visão integral da Medicina. A saúde muito agradeceria!

 

 

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