A epigenética e o destino biológico

Discutindo a relação mente/corpo

O determinismo genético tem sido posto à prova desde sempre. Mas hoje, é universalmente reconhecida a importância do ambiente interno (mente) e externo (família, comunidade e meio ambiente) no desenvolvimento das doenças. A epigenética tem evidências concretas a respeito da capacidade de modificar a influência do código genético e com isso evitar o adoecimento. Em palavras da própria ciência, existiriam muitas variáveis capazes de influenciar e mesmo evitar a expressão de determinado gen causador desta ou daquela doença.

Trocando em miúdos, o fato de ter herdado a carga genética do diabetes mellitus ou do câncer de mama, por exemplo, não significaria certeza de vir a manifestar a doença. E aqui não me refiro à herança possível de quem tem um pai, mãe ou avós portadores da doença em questão. A observação é a respeito de indivíduos comprovadamente portadores dos gens “defeituosos”, potencialmente responsáveis por estas doenças.

Será que temos consciência da importância desta afirmação? Um grande passo à frente foi dado em relação ao controle do adoecimento.

Uma fala comum nos consultórios é aquela do individuo que ouve o seu diagnóstico expressando a certeza da sua inevitabilidade: “Ah…mas essa doença é comum na minha família…meu pai teve, meu irmão também…um dia tinha que acontecer comigo”

Como se fosse a única realidade possível!

A neuropsiquiatria tem se desenvolvido bastante na última década e com tecnologia de ponta vem produzindo evidências científicas de padrões bioquímicos comuns a várias manifestações de desorganização emocional (como na esquizofrenia, na bipolaridade, no transtorno do déficit de atenção /TDAH,entre outras). Têm sido evidenciados e estudados estes padrões distintos e, portanto não podemos dissociar mente e corpo como sugerem alguns. Ambos se submetem a códigos bioquímicos mutáveis e interdependentes.

Mas utilizando a analogia proposta, vejamos como o contrário pode ser pensado: a idéia (mente) sendo capaz de produzir alterações nas células do organismo, mudando o padrão de adoecimento. Há muito se sabe da influência da mente sobre o adoecimento do corpo. Além disso, o vemos o efeito placebo sendo validado pela comunidade cientifica, a prece ou oração sendo estudada (Universidade Johns Hopkins) como fonte de reequilíbrio orgânico e restabelecimento rápido em doentes hospitalizados. Então temos todo o conhecimento necessário para induzir modificações na herança genética e influenciar positivamente o desenvolvimento, melhorando a qualidade de vida.

A ancestral Medicina Chinesa com suas áreas de representação orgânica (o fígado fala da raiva, o rim do medo, p.ex.) e a iridologia mostrando a possibilidade do organismo sinalizar a característica emocional do individuo e a fragilidade de cada sistema nela representado…são alguns de muitos outros vieses possíveis. São tantas as direções que apontam para o entendimento de cada forma de adoecer, de distinguir um individuo do outro em sua mazela física que é improvável que utilizando essas ferramentas não sejamos capazes de nos anteciparmos às doenças crônicas dos quais somos vítimas quase todos na idade adulta (na melhor das hipóteses).

Interessante é a perspectiva da doença antecipada quando dizemos que “o corpo avisa que vai adoecer”, ”o corpo fala”. É uma verdade. E nesse estágio ainda temos o controle e podemos evitar a organicidade da doença, isto é, conseguimos reverter o dano e impedir sua “cronificação”. Onde aí sim a injúria ao tecido, a lesão ao órgão e a incapacidade de se manter a não ser com ajuda química (medicação).

Mas para isso, uma vez detectada a causa devemos ser capazes de mudar o estilo de vida e os hábitos que estão contribuindo negativamente e levando ao desequilíbrio. Insistir é bobagem e garantia de lesão futura. A única dúvida é em relação ao tempo que levará para cada um de nós termos que encarar a doença instalada.

Temos a faca e o queijo nas mãos. Então porque o aumento na prevalência das doenças crônicas? Porque é tão difícil para nós introduzirmos as mudanças necessárias para mudar este cenário?

Porque é tudo é ainda muito novo para a maioria de nós, porque é mais difícil introduzir novos hábitos na idade adulta ou porque é mais fácil deixar a vida nos levar (como no samba…) pra ver como fica depois?

Se alguns de nós deixamos de ver o conjunto e perdemos a perspectiva, os outros devem nos ajudar a reencontrar o “norte” e retomar a responsabilidade de cuidar da melhor forma do corpo que carregaremos até o fim desta jornada.

Uma parcela da comunidade cientifica (ainda pequena, mas bem representada) e alguns organismos públicos (nacionais e internacionais) tentam há pelo menos duas décadas mudar esse cenário. É um trabalho pesado, uma luta diária que precisa ser dividida com cada indivíduo. Cada um de nós tem papel importante na estruturação e implantação das mudanças necessárias.

Vamos nos juntar, somar para fazer a diferença. Como já disse Ghandi, “a única revolução possível é dentro de nós!”

Alzheimer, o que estamos deixando de ver?

 

Prevenção da doença de Alzheimer (DA):

 

-Aumento da atividade aeróbica

-Adoção de dieta mediterrânea

Estímulo das tarefas cognitivas

 

É assim, sem intervenção farmacológica, apenas com mudanças no estilo de vida que obtemos efeito protetor em relação à DA. Este é o protocolo a que indivíduos portadores do gen especifico para a DA são submetidos na intenção de retardar o aparecimento dos sintomas enquanto não surgem drogas capazes de reverter o processo já iniciado ou mesmo “vacinas” com fatores químicos de proteção  contra a doença.

Nesta família que vem sendo estudada há algum tempo, um menino com menos de 15 anos foi diagnosticado com DA clinicamente estabelecida. A gravidade dessa observação ainda não foi tratada como deveria, tanto pelos médicos quanto pela mídia cujo papel é esclarecer e informar a população. A comunidade científica tem a DA como uma de suas prioridades, mas qual o custo futuro da falta de organização da sociedade em relação à demência, se o tempo não conspirar a favor dos nossos cientistas? Todos temos um papel nas catástrofes que nos atingem. O meio ambiente nos lembra sempre as nossas faltas. As tragédias das enchentes (cada vez mais freqüentes aqui no Rio) são um exemplo. O aumento da resistência à insulina e o diabetes tipo 2 , além da obesidade tomam proporções trágicas também.  É difícil hoje que qualquer um de nós possa dizer que entre seus familiares diretos (avós, pais, tios ou irmãos) não exista sequer uma pessoa diagnosticada com diabetes tipo 2. E querem saber de uma novidade? Cogita-se no meio acadêmico que a resistência à insulina (cerebral) possa ser um dos gatilhos da doença que leva à demência. A hipótese levaria à identificação do diabetes tipo 3 (cerebral) que aceleraria o processo da perda da memória no Alzheimer, um dos sinais do declínio cognitivo característicos da doença.

Em relação à DA, segundo últimas análises estatísticas, os órgãos de saúde americanos trabalham com a expectativa de que em 2050 existirão  13.5 milhões de pessoas com diagnóstico de Alzheimer.

Conhecidos fatores de risco para a doença, hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemia (alteração do metabolismo lipídico) e estresse crôni- co são fatores agravantes enquanto a prática contínua de atividade física (exercícios aeróbicos) aumentaria a reserva cerebral (oxigenação) atuando como fator importante de proteção em relação à demência.

*“Definimos uma estratégia preventiva como a ação que nos permite diminuir o aparecimento de uma determinada doença no nível da popula ção geral”.

*“Medidas de prevenção primária para evitar, numa população saudável, a exposição a determinadas situações que levariam ao aumento da prevalência da doença. Assim se reduziria a possibilidade de aparecimento desta determinada doença entre aqueles indivíduos. Existem também as medidas de prevenção secundária cujo objetivo é diagnosticá-la em estágios iniciais contribuindo para uma maior qualidade de vida desses individuos.”

Considerando que ainda não existe cura para Alzheimer, as campanhas informativas a nível da população geral poderiam auxiliar na diminuição da incidência da doença a médio e longo prazos, através de outro viés, orientando quanto às possíveis estratégias que poderiam retardar ou inibir o aparecimento da doença: educando sobre os fatores protetores em relação à DA.

*conceitos extraídos da série “Médico em casa”,Editora Plátamo (Lisboa)

Por que alguns adoecem mais do que outros?

Destino biológico, uma via de mão única?

 

Por que alguns adoecem mais do que outros?

 

A vida se manifesta em nós de forma absolutamente distinta. Somos biologicamente diferentes uns dos outros. Mesmo gêmeos univitelinos têm identidades bioquímicas e celulares diferentes.

Aliada à organicidade única, os indivíduos diferem também quanto ao temperamento e personalidade. Se expandirmos esse raciocínio, as muitas variáveis e possibilidades de combinação dessas características seriam infinitas.

Aonde quero chegar?

O que tento lembrar é que somos tão diferentes uns dos outros que me parece “non sense” pensar a Medicina de forma tão linear e ter fórmulas terapêuticas únicas para cada doença manifestada em indivíduos tão diferentes entre si.

Todas as áreas do conhecimento humano possuem uma dinâmica própria. Nenhum conhecimento é imutável, verdade absoluta para sempre. Mas especialmente a Medicina deve ser vivida como fonte de conhecimento que evoluiu tremendamente nas últimas duas décadas, mas que ainda acumula mais dúvidas do que certezas.

Aprendemos todos os dias vivendo a Medicina como ela é: uma arte! Arte de ouvir, questionar, intuir, descobrir,duvidar, mas antes de tudo, a arte de se comover tentando entender o funcionamento e ajudando o organismo a retomar o seu equilíbrio.

Sob esse aspecto, os consensos médicos atuais priorizam a universalidade estatística dos sintomas e sinais. Esquece de (antes de tudo) tentar entender como e porque aquele indivíduo (em especial) adoeceu.

A genética expõe as possíveis e prováveis áreas de risco, mas a imprevisibilidade da instalação ou não da doença depende mais (ou em igual proporção) do temperamento do indivíduo, das condições em que ele vive e do seu estilo de vida (ambiente familiar, clima, hábitos alimentares, atividade física). É o que a epigenética nos tem ensinado: que o determinismo genético não é a verdade médica absoluta! Como diz o ditado: “Há mais coisas entre o Céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia”. E a Medicina é um grande e complicado quebra-cabeças!

Mas a verdade é que estamos mais doentes do que nunca. Como já disse antes, vivemos por mais tempo, mas o custo tem sido alto. Câncer, diabetes, obesidade,pressão alta e demência cada vez mais prevalentes entre nós. O que deixamos de ver ao longo do processo de aumento da expectativa de vida? O cientificismo médico tem nos proporcionado vida mais longa, mas…o mesmo não se pode dizer da qualidade de vida. O que deixamos de ver, nós médicos, enquanto nos preocupávamos em tratar infecções, normalizar pressões e taxas de açúcar de nossos assistidos?

Estávamos apenas tratando os sintomas resultado do adoecimento…que poderia ter sido evitado! Seria possível evitar (na maioria das vezes) ou pelo menos minimizar (em muito) a sintomatologia, além de personalizar cada vez mais o tratamento dessas mesmas doenças? Delírio demais? Temos realmente poder para mudar o nosso destino biológico (genótipo)? Mas, acima de tudo, queremos mudar e estamos (mesmo) dispostos a lutar contra nossos impulsos e necessidades de gratificação instantânea, o prazer acima de tudo?

Este é o cerne da questão, a meu ver. É tão mais fácil (e prazeroso) pensar (e agir) aqui e agora, viver hoje como se não houvesse amanhã… Estou falando dos erros alimentares, dos excessos da mesa e do apelo fácil do sedentarismo. A motivação tem que ser do próprio indivíduo. Mas a orientação básica e o estímulo necessário são tarefas do profissional da área da saúde.

 

A medicina psicossomática estuda a relação mente-corpo, mas ainda engatinha. E, enquanto não soubermos como cada um de nós, com personalidades e temperamentos diferentes pode (através do auto-conhecimento e da solução das suas questões emocionais) evitar o adoecimento físico, continuaremos a prescindir das mesmas orientações gerais: dieta, exercício físico e manter ressonância com os bons pensamentos além das técnicas anti-stress.

Nesse sentido é interessante a matéria divulgada no jornal “O Globo” sobre stress e carga genética (genótipo) versus surgimento de doenças (fenótipo). Vale a pena ser lida!

 

Doença: prevenção e tratamento

O medicamento e a estratégia não medicamentosa na condução do tratamento e da prevenção da doença

 

             O medicamento é a arma do médico contra a doença instalada. Ainda assim, seu uso deve ser muito bem avaliado, caso a caso, sob pena de comprometer sob vários aspectos, e de forma permanente, a capacidade de readaptação funcional daquele organismo em que atua. A droga auxilia a iniciativa orgânica de restauração da homeostasia, mas muitas vezes interrompe ou mesmo anula a capacidade de auto-suficiência necessária à manutenção da vida (reações químicas e físicas que se processam ininterruptamente minuto após minuto, dia após dia, ano após ano).

Estes ditos “efeitos colaterais”, se contínuos, podem inibir a autonomia orgânica e além de serem desagradáveis (significarem sinais e sintomas), contribuem para a perda definitiva do controle interno (do corpo sobre ele mesmo). A partir daí necessitamos indefinidamente (por toda a vida) da droga. E como estes efeitos geram outras modificações a longo prazo, cada vez mais precisaremos de mais drogas (diferentes) para controlar cada um destes novos efeitos colaterais. Daí a dependência química (medicamentosa) cada vez maior de que somos testemunhas hoje em dia.

“É um mal necessário!” dirão muitos. Não necessariamente dirão outros tantos. Eu me incluo neste último grupo. Se a cultura da prevenção fosse uma realidade, se pensássemos mais nas soluções mais simples, desde como evitar a doença em vez de pensar apenas ou tão mais a respeito do“tratamento”da doença já instalada, mudaríamos a realidade de hoje.

Os check-ups são necessários, mas não são “preventivos”. Eles são importantes, nos informam mais precocemente sobre as doenças e os estados de desequilíbrio sobre os quais devemos agir para eliminar (ou lentificar) o processo patológico e mudar o desfecho esperado.

Porém, existe um hiato muito grande entre a saúde e a doença. Deste espaço a medicina não se ocupou como deveria. Os exames laboratoriais, por exemplo, são capazes de detectar o que está muito diferente da “normalidade”, do padrão. No entanto, cada vez mais os médicos têm tido que aprender a perceber e lidar com estados sub- clínicos das doenças. Em outras palavras,situações em que o individuo tem sintomas vagos, sabe que algo está errado com ele, que algo mudou e precisa ser “consertado” e o médico não encontra nenhuma anormalidade bioquímica, de imagem ou qualquer outra ligada à propedêutica conhecida (formas de analisar cada doente para se chegar a um diagnóstico).

A evolução do quadro, depois, confirma muitas vezes suspeitas que não puderam ser comprovadas antes, dificultando tomadas de decisão que poderiam ter modificado o desfecho.

Como a saúde exige uma percepção dinâmica e a doença pode ser pontual, nos acostumamos a perceber e definir a doença pelos sintomas que nos afligem. Mas a doença não acontece “do nada”,”sem aviso prévio” ou “da noite para o dia”, mesmo nos processos infecciosos!

Somos expostos aos mesmos vírus (por exemplo), no ambiente de trabalho, no transporte público, nas áreas de lazer. Nas epidemias freqüentamos e dividimos os mesmos espaços geográficos, mas o percentual da população que fica doente é sempre muito menor do que aquele que foi exposto.

Sabemos a resposta: a imunidade de cada um de nós. Esta arma é individual, específica e intransferível (exceto no período de lactação, quando a mãe protege o bebê com seus anticorpos). Sabemos também como ajudar cada organismo a aumentar suas defesas, ou por outro lado, o que leva cada um de nós a perder a capacidade de nos defendermos desses “ataques” diários. Por que não utilizamos este conhecimento em  maior escala para tornar desnecessária a intervenção medicamentosa que a longo prazo modificará o organismo (e não para melhor, com certeza)? A autonomia funcional do organismo deve ser buscada sempre, e em primeiro lugar!

Qualquer dependência física ou química deve ser rejeitada em benefício de melhores resultados em relação à manutenção do estado de saúde.

           

A intenção não é polemizar, apenas informar.

Você sabe o que é homeostasia?

A homeostasia e sua importância

 

O organismo funciona de forma muito harmônica. Na verdade, toda organização de sistemas e pessoas no sentido de um bem comum já mostra a força que a união tem sobre a unidade e como ela pode modificar o todo. No corpo humano não poderia ser diferente. E é essa constatação que nos deixa maravilhados. A observação da vida se desenvolvendo constantemente, se estabelecendo da melhor maneira possível, organizada e mantida pela conexão permanente dos órgãos vitais com as terminações nervosas geradoras e condutoras de informações. Ver esta atividade de cooperação constante entre os órgãos e sistemas é que nos dá certeza de ser este trabalho contínuo que, em última análise, mantém a higidez do todo. O produto desta atividade incessante é o que chamamos de homeostasia.


Homeostasia

 

Apenas por um curto espaço de tempo o organismo se mantém em equilíbrio. São muitas as variáveis que influenciam esse processo e elas estão sendo modificadas continuamente. Homeostase (ou homeostasia), por definição, é o estado de equilíbrio  orgânico(do popular), mas o termo tem um significado mais amplo e se refere à busca constante do equilíbrio dentro de um sistema, qualquer que seja ele, humano, técnico, social, governamental etc. O desequilíbrio é uma constante. É inevitável. Em contrapartida, a busca pelo equilíbrio é mais do que isto. É uma questão de sobrevivência.

  Um americano, Walter Canon, fisiologista, cunhou o termo homeostasia, do grego homeo (o mesmo) e stasis (ficar). O significado ao pé da letra é a “manutenção das constantes do meio interno”. Os órgãos e tecidos do organismo, sem exceção, auxiliam na manutenção desta estabilidade.

Esta busca constante e incessante do corpo humano pelo estado de equilíbrio orgânico pode ser medida pelas reações à agressão, seja ela física, química, ambiental ou tão somente por organismos vivos(vírus, fungos, bactérias, parasitas, etc).A todo instante nossas células trabalham no sentido de reagir a estas novas “agressões” que as o- brigam a mudar rotinas fisiológicas para tentar no menor prazo possível (para minimizar os danos prováveis) retornar ao estado de equilíbrio orgânico. Ou seja, elas tentam voltar à velha rotina de reações químicas, multiplicações celulares harmônicas e previsíveis, retomando o ritmo normal daquele organismo. Todos os dias isso se repete.A cada ação existe uma reação, conforme nos ensina a física. As reações se manifestam através dos sinais e sintomas de uma alteração do “ritmo normal” que pode ser percebido apenas como uma variante (via alternativa) e não ter significação de adoecimento. Como quando dizemos “…ontem eu estava esquisita, não estava bem…mas hoje estou ótima! Me sentindo superbem…sei lá o que aconteceu…” Em outros casos, quando o organismo sozinho não consegue retornar ao estado de equilíbrio, precisamos ajudá-lo!

É então que nós, médicos, nos valemos de orientações, dietas, exercícios, procedimentos, medicamentos, cirurgias, enfim, tudo que for necessário para devolver ao corpo doente o equilíbrio que tornará viável a retomada da vida. Tudo isto com o rearranjo bioquímico, celular, estrutural e em ultima instância funcional, que permita a melhor qualidade de vida possível.

E é com essa variável que se preocupa hoje a medicina voltada para a promoção da saúde. Porque existem muitas formas de se retomar a homeostasia, mas são os diferentes caminhos utilizados nesta tarefa que implicarão na diferença de resultados a médio e longo prazo.

Cada vez mais conhecemos a relação de dependência entre o meio ambiente e a saúde do homem. Pesquisas nos informam que somos formados por 10 trilhões de células e que nosso corpo abriga 100 trilhões de bactérias. E cada uma delas pode significar muito para nossa economia interna e coexiste em harmonia em nosso interior em con- dições normais (homeostasia mantida). Sabemos ainda que “nosso corpo contem 10 vezes mais bactérias do que células humanas” Fonte: matéria “Os verdadeiros donos do mundo” na revista Superinteressante de agosto de 2009.

Com os vírus não é tão diferente, eles também necessitam de nós para sobreviverem. Os que sobrevivem por mais tempo são os menos letais, que permanecem em nós por anos a fio, sem provocar o próprio suicídio, que seria destruir a fonte do alimento que os nutre: nós.

Mas, como tudo que tem vida não vive bem sem uma vida de relação, precisamos (assim como as bactérias, os vírus e todos os outros seres) encontrar um equilíbrio em nossas relações para permitirmos uns aos outros uma convivência pacífica e duradoura.

A seleção natural faz seu trabalho constantemente. Nós temos que aprender a  cuidar do nosso organismo da melhor forma possível para garantirmos essa longevidade com a qualidade esperada.

Ainda usando como referência a matéria “Os verdadeiros donos do mundo”, da revista Superinteressante (agosto 2009): ”Somos passageiros em um planeta controlado por bactérias e vírus. Nossa vida depende da nossa capacidade de enfrentá-los. O problema é que estão mais fortes do que nunca. E por nossa causa”.

A cada “descoberta” humana a respeito da doença, a cada avanço cientifico – tecnológico na área médica se alinha em contrapartida um viés negativo quase sempre subestimado(ou negado) inicialmente. Mas assim como não podemos negar a morte, nada mais real e constante do que perceber que a cada ação sobrevém uma reação, e a cada ponto positivo se contrapõe um negativo.

Cabe a nós analisarmos, sob os vários ângulos, cada possibilidade e escolher o caminho que provavelmente nos leve a um desfecho mais favorável. Negar o óbvio só contribui para aumentar a inadequação das escolhas e alimentar o falso resultado, a curta eficácia da proposta terapêutica, no caso da Medicina.

           

O conhecimento médico a respeito de saúde

As “várias medicinas” podem se ajudar com estratégias complementares, não excludentes.

O conhecimento sobre saúde é muito mais amplo do que se admite e tem sido sub-utilizado pela Medicina Convencional.

Não sou contra o desenvolvimento científico. Obviamente, reconheço os benefícios da tecnologia e dos avanços em diagnóstico e tratamento dos dias atuais. Apenas penso que estamos voltados tão somente para um ângulo da questão. Se a ênfase fosse preventiva, se investíssemos mais na saúde e não na doença, a longevidade com certeza estaria acompanhada de mais qualidade de vida. Mas hoje o cenário ainda é outro.

Por que não implementar mais estratégias de promoção de saúde e de prevenção de doenças? Por que não conduzir mais pesquisas cruzando os dados epidemiológicos e estatísticos com os antropométricos e outras características familiares e individuais, hábitos alimentares e estilos de vida? Sem dúvida agregaria mais valor, mas penso que muito já se disse (e se diz) a respeito.

Um grande divisor de águas nesse sentido foi o trabalho do Dr. Dean Ornish cardiologista americano do Preventive Medicine Institute e da University of California, autor de vários livros que relacionam a mudança de estilo de vida à alteração da expressão genética, contrariando o que sempre se disse: “os genes são os principais determinantes da saúde e não são modificáveis”.  Ele ensina que “… intervenções simples, baratas e de baixa tecnologia…” mudam o seu estilo de vida e isso pode mudar seus genes, sim! Podemos nos antecipar à doença, evitá-la, modificar seu curso ou reverter prognósticos negativos. Já temos este conhecimento.

Falta bom senso, iniciativa popular e vontade política. É verdade que falta investimento maior em educação para a saúde, estimulando o interesse da população. Mas falta também interesse do médico e de outros profissionais da área de saúde. Eles deveriam ser os vetores da disseminação desta “nova” forma de entender a saúde e combater a doença.

Nós médicos ainda não percebemos que o caminho que temos percorrido é equivocado. Que a intervalos curtos, cada vez mais curtos, tudo fica obsoleto, mudamos conceitos, drogas e estratégias rápido demais para percebermos, mais tarde, que não  houve ganho importante. A abordagem continua errada.

Não devemos apenas continuar buscando drogas milagrosas para resolver as doenças, investindo para isso todo tempo e dinheiro. Deveríamos ser capazes de nos antecipar aos eventos, identificando possíveis causas e estratégias para fazer frente a eles. Ou pelo menos, como se faz em economia, dividir para multiplicar, ou seja, invéstir nessas várias frentes para resultados mais eficientes a longo prazo.

Cada caso é sempre um caso diferente. A experiência adquirida no exercício da profissão, num aprendizado contínuo, se traduz em assertividade cada vez maior em relação aos diagnósticos feitos. E a capacidade de discernimento de cada médico deve ajudá-lo a decidir em função dos sinais e sintomas e principalmente do organismo que está doente, levando em consideração as suscetibilidades individuais e, porque não, as crenças de cada um a respeito de saúde.

Hipócrates (e outros médicos antes dele) defendiam uma medicina voltada para a saúde, no sentido de ajudar o organismo na sua constante busca da homeostasia ou equilíbrio interno. Equilíbrio este que seria conseguido à custa de reajustes nos processos bioquímicos mantenedores do funcionamento ideal dos órgãos e sistemas do corpo humano. Nosso organismo está capacitado a retomar a normalidade funcional através desses ajustes diuturnamente levados a termo. Cabe à terapêutica médica auxiliar esse processo quando o corpo esgota as suas próprias possibilidades.

Lembro ainda que quando falo em agir conforme a medicina complementar não significa substituir a terapêutica convencional onde e quando ela não pode nem deve ser substituída. 

Quando você está gripado, toma apenas vitamina C, um descongestionante e vai pra cama? Ou toma também um chá quente (de preferência de equinácea ou similar, quando não existe contra-indicação para este fitoterápico), opta por não se alimentar com muito carboidrato simples (açúcar e doces que, além de você, os vírus também adoram!) e prefere sopas de legumes ou a canja da mamãe (hum… delicia!) além de fazer gargarejos com água morna, sal e limão ou romã?…

São estratégias complementares e não excludentes que podem acelerar o processo de cura, devolvendo mais rapidamente o bem estar ao doente. Então porque não usar?

E já que falei da equinácea (fitoterápico que estimula a imunidade), aproveito para lembrar que ela deve ser evitada em indivíduos portadores de doença auto-imune. Nestas pessoas, o fitoterápico pode induzir uma piora rápida da doença. E pensando bem, se a equinacea é capaz de acelerar a doença causada por excesso de imunidade (característica da doença auto-imune) como podemos negar suas propriedades imunoestimulantes? Porque ela ainda é desconhecida da maioria de nós, médicos ortodoxos?

Pensemos a respeito!

Saúde: o que mudou em 20 anos?

Cuidados primários de saúde e o PSF (programa de saúde da familia):

No Brasil, a  imperativa necessidade de mudança na forma de ver a saúde e administrar a doença é reconhecida e discutida em todas as esferas há pelo menos 20 anos.

Algumas iniciativas já foram tomadas.

O Programa de Saúde do Adulto foi criado com o objetivo de “… formular e implementar políticas de saúde direcionadas à assistência integral à saúde do adulto, segundo diretrizes do Ministério da Saúde para a área, contribuindo para aumento na expectativa e qualidade de vida da população no Distrito Federal”.

Este programa pretende “prestar assistência à saúde do adulto focando nos programas de diabetes mellitus e hipertensão arterial sistêmica, dentro de um conceito de integralidade, mudando o foco de atenção na doença para atenção global de saúde, permitindo identificar os principais problemas que a afetam. Conheça o programa na íntegra em:  http://www.saude.df.gov.br/005/00502001.asp?ttCD_CHAVE=6838

Ações como esta estão sendo implementadas, sim.

Mas em ritmo, dimensão e formato que não terão o impacto necessário para efetivamente conseguir mudar o cenário da saúde a médio prazo. E sendo assim, incapazes de desacelerar algumas das epidemias deste século, em termos de doenças degenerativas.

Em 1978 a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a UNICEF promoveram a Conferencia sobre cuidados Primários de Saúde que ficou conhecida como Conferencia de Alma-Ata, local em que foi realizada. Aprovada uma proposta de atenção primária em saúde, com enfoque prioritário em promoção e prevenção da saúde. A meta era atender a todos os membros ou segmentos da sociedade até o ano de 2000. Na ocasião, a OMS reafirmou que “a saúde não é apenas a ausência de doença e sim um completo bem-estar físico, mental e social”.

No Brasil, em 1988, a Nova Constituição Brasileira declarou que “Saúde é direito de todos e dever do Estado”. Nesta ocasião foi garantido a todo cidadão, por lei, o acesso às ações de prevenção, promoção e recuperação da saúde.

Em 1994 o Programa Saúde da Familia (PSF) foi criado com o objetivo de implementar o processo de mudança do paradigma que orientava o modelo de atenção à saúde da época. Alicerçado pelo comprometimento com um novo modelo que valorizava ações de promoção e proteção da saúde, prevenção das doenças e atenção integral às pessoas. Esperava-se que ele superasse o anterior, que se baseava na supervalorização das práticas da assistência curativa, especializada e hospitalar e que induzia ao excesso de procedimentos tecnológicos e medicamentosos. Era um “novo modo de fazer saúde”.

Segundo o próprio Ministério da Saúde, eram tarefas do médico do PSF: realizar assistência integral (promoção e proteção da saúde, prevenção de agravos, diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção da saúde) aos indivíduos e famílias, em todas as fases do desenvolvimento humano: infância, adolescência, idade adulta e terceira idade.

Em 2005 numa avaliação publicada na Revista Latino-americana de Enfermagem, Rosa WAG e Labate RC  sugeriam que onze anos depois de implantado,o PSF “…não é muito diferente do modelo atual que infere que consultas e exames são equivalentes a soluções para os problemas de saúde”. Rosa WAG, Labate RC. “Programa Saúde da Família: a construção de um novo modelo de assistência”.Rev Latino-am Enfermagem 2005 novembro-dezembro 13(6):1027-34

Leia na integra, no link:   http://www.scielo.br/pdf/rlae/v13n6/v13n6a16.pdf

Avaliando a saúde segundo parâmetros aferidos no dia a dia do consultório médico na clínica privada, ainda hoje muito pouco mudou desde 1994, quase dezessete anos depois do “novo modo de (pensar e) fazer saúde”.

É chegado o momento de nos mobilizarmos. O inconsciente coletivo aponta outra direção para a saúde. A necessidade de mudança de foco no tratar da saúde hoje é cobrada pelo próprio paciente!  A Medicina ortodoxa, numa atitude pouco inteligente, para não dizer arrogante, não se permitiu complementarizar.  Não admitiu agregar valores conhecidos há muito tempo, em nome da tão falada medicina baseada em evidências. Cometeu aí um grande êrro!

Deixou passar, ao largo, a oportunidade de se agigantar, agregando todo conhecimento disponível e enriquecendo o arsenal de opções a oferecer para a retomada da saúde. Hoje existem várias medicinas, polarizadas sob as formas de Medicina ortodoxa e Medicina Alternativa ou Complementar ou Integral (prefiro essa terminologia).

Médicos repensando a Medicina

Algumas opiniões há muito conhecidas:

“… no mundo atual tão doente, o grande desafio para um médico é tornar-se um “promotor de saúde da comunidade no sentido mais amplo. Para que os futuros médicos sejam melhor preparados para enfrentar os problemas atuais de saúde, há necessidade de mudanças profundas em nossas faculdades de medicina. Os médicos precisam aprender a trabalhar com a comunidade inteira, não apenas com indivíduos doentes. Precisam aprender a compartilhar seus conhecimentos, a desmistificar suas habilidades…” Dr. David Werner é diretor de HealthWrights, Workgroup for People’s Healths and Rights  e coordenador regional do Conselho Internacional de Saúde dos Povos para a América do Norte na Califórnia. Ele apresentou esta palestra em 1990, durante o 40º encontro anual da Associação Americana de Estudantes de Medicina, Arlington, VA, EUA.

Quanto mais jovem o médico, mais invasiva e reducionista é a sua visão da Medicina, menos ele vê o todo, ocupado que está em tratar a doença e não o doente! Mas a culpa não é dele. A construção do conhecimento é antes de tudo papel da Instituição de Ensino. E, quem ensina? O médico mais velho, mais experiente. Este com certeza já se questionou (ou foi questionado) a respeito da falência do modelo atual. Mas então porque apenas alguns de nós assumimos a necessidade de mudança? Se o próprio indivíduo leigo, já busca (ativamente) alternativas ao modelo oficial, por que continuamos a ignorar o movimento crescente em direção à humanização da medicina e contra o reducionismo cientifico?

A esse respeito já foi dito:

“… A maioria das faculdades de medicina do mundo prepara o médico não para a saúde da população, mas para se dedicar a um exercício da medicina que é cego para tudo que não seja a doença e a tecnologia para tratar dela…” Dr. Halfdan Mahler Ex-Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde, diretor do Primeiro hospital de ensi- no de medicina natural na Grã-Bretanha.

Mas,

“… A idéia de assumir a responsabilidade por sua própria saúde é tão estranha à maioria das pessoas que é assustador. Quão mais confortável é pôr nossas vidas nas mãos de outrem, como o médico…” disse o Dr. George Spaeth, médico oftalmologista do Wills Eye Hospital.

A Medicina da saúde está ao meu e ao seu alcance e a medicina da doença é do que nos ocupamos nós, os médicos.

“… doença é da responsabilidade do médico, dos cuidados da enfermagem, da organização hospitalar e da sociedade como um todo organizado, porém a saúde é responsabilidade de cada um de nós…”

             “… saber da tendência natural que o corpo tem à saúde e como é válido o princípio da homeostase, que significa equilíbrio e tendência natural à saúde…”

“… a humanidade está doente física ou emocionalmente porque está vivendo fora de seus padrões naturais, e estes doentes muitas vezes não têm conhecimento de seu estado de saúde, tornando-se dependentes de produtos químicos e farmacêuticos…”. Estas são três frases extraídas do livro de outro médico, Dr.Antonio Quintanilha:  “Coluna Vertebral: segredos e mistérios da dor”– AGE Editora, 2002

Com o avanço tecnológico e científico temos visto mudar celeremente os conceitos em muitas áreas do conhecimento humano. Na Economia, na Engenharia, no Direito e muitas outras. Na Medicina não tem sido diferente. A quantidade de informação é tanta que para darmos conta dela com a máxima eficiência tivemos que dividir com outros profissionais o conhecimento em saúde. A Biomedicina, a Engenharia Genética, a Engenharia de Alimentos são algumas das parcerias que nos ajudaram a reformular nosso pensamento a respeito do cuidado médico. Depois que aprendemos que a expressão da doença não depende unicamente da genética e que podemos intervir de forma bastante eficaz na prevenção, muito se tem falado em promoção de saúde. Seria talvez o momento de nos dedicarmos a uma nova área de especialização médica para que, no dia a dia, possamos nos encarregar de oferecer aos pacientes a informação e os cuidados necessários para uma maior qualidade de vida na longevidade.

Nós médicos, com certeza e cada vez mais queremos ajudá-lo na tarefa de manter a sua saúde.

Apenas tenha um pouco de paciência conosco (médicos) porque apesar de bem intencionados ainda somos muitos com dúvidas a respeito da multiplicidade de opções e de como utilizar tudo que sabemos hoje. Outros ainda manifestam grande ceticismo em relação à eficácia da intervenção médica através de recursos outros que não a medicação alopática e o trabalho pontual com a doença.

O viés não ortodoxo em relação à saúde e ao tratamento do indivíduo não é tolerado pela maioria dos médicos. A comunidade científica se fecha em torno da medicina baseada em evidências em detrimento de um olhar mais generoso em seu entorno. Ao conhecimento milenar adquirido em todas as áreas relacionadas à saúde não é dado sequer o beneficio da dúvida.

E esta integração entre as “medicinas” poderia ser tão bem explorada! O reducionismo médico-científico (alopatia) aliado à medicina do todo (meio ambiente e ser humano psico-fisico-social) contemplariam as múltiplas manifestações e causas de ausência de saúde. Menos iatrogenia e provavelmente mais qualidade de vida é o que teríamos no longo prazo.

 

Muito se faria pela saúde se pudéssemos repensá-la sob novas bases!


Iatrogenia refere-se a um estado de doença, efeitos adversos ou complicações causadas por ou resultantes do tratamento médico. Contudo, o termo deriva do grego iatros (médico, curandeiro) e genia (origem, causa), pelo que pode aplicar-se tanto a efeitos bons ou maus. Em farmacologia, o termo iatrogenia refere-se a doenças ou alterações patológicas criadas por efeitos laterais dos medicamentos.  http://pt.wikipedia.org/wiki/Iatrogenia.

A Medicina e o cuidar da saúde

A Medicina ortodoxa não priorizou a visão do todo. Ela considera tão somente um órgão, tecido ou sistema a ser reparado na doença. Mais ainda, ela não admite estratégias terapêuticas diferentes daquelas ditadas pelo cientificismo da visão ortodoxa, alopática.

Penso que não se deve eleger nenhuma forma terapeutica como verdade única. Acredito que todas sejam ferramentas úteis, a cada momento, e em cada caso. E que não existe apenas uma única forma ideal de tratar um doente. Isso porque ainda acredito na capacidade ímpar de restabelecimento do organismo. E para mim, tratar deve ter o significado de ajudá-lo a voltar à situação de homeostasia, com o mínimo desgaste possível. Lembra da bateria que vai perdendo energia, como eu disse em outro post, e em determinado momento não consegue mais retomar a tarefa de manter o equilíbrio? Mínimo desgaste possível significa procurar manter inalteradas as rotas bioquímicas pré-estabelecidas. Isto só é possível se as drogas sintéticas forem utilizadas cada vez menos e por menos tempo.

E todas as formas de cuidar serão úteis, pontualmente, no tratamento de cada indivíduo, e específicas para ele, uma a cada momento. Mas nenhuma delas deverá ser usada cronicamente na manutenção do estado de saúde. Esta tarefa deverá ser devolvida ao próprio organismo. No longo prazo, todas elas, drogas alopáticas, fitoterápicas e/ou suplementação biomolecular são indesejáveis, a não ser na situação de manutenção da vida, quando o organismo já perdeu a capacidade de retomar o controle e a homeostasia. Neste caso específico, sem dúvida, a alopatia é opção única.

O que questionamos é a excessiva valorização da doença em detrimento da promoção de saúde. E lembramos ser mais importante valorizar a prevenção das emergências que a medicina oficial trata, com sucesso, para ver, depois de algum tempo, o retorno do mesmo paciente a situações de risco igual ou maiores que aquelas dos quais o socorreu essa medicina organicista.

          Nós estamos vivendo a era da globalização, da visão do macro, do olhar à distância. A Medicina parece andar na contramão da sua época quando se torna, cada vez mais reducionista, localizada. Especialidades, sub-especialidades, avaliações míopes, cada vez mais olhando apenas o órgão doente, tratando aquela célula diferente. Mas nada no organismo funciona isoladamente!   Ele é uma máquina  de múltiplas funcionalidades, mas todas fazendo parte de um ambiente controlado com perfeição pelo conjunto de órgãos que se auxiliam na busca da manutenção do equilíbrio orgânico.

          Pare e pense!  Desde que nascemos essa máquina passa por mudanças, trilhões de vezes a cada dia, programada que foi para nos auxiliar a manter a vida pelo tempo que puder ser usado o seu sistema de compensação. E cada vez mais o organismo está ocupado em nos proteger de todas as múltiplas formas de agressão que nos atingem.O caos ambiental não difere do caos interno vivido hoje, por muitos de nós .Fomos os responsáveis pela destruição ambiental, assim como somos responsáveis pela falta de saúde (cada vez maior)!

Ainda podemos mudar este cenário!

A qualidade de vida tem acompanhado a longevidade?

Vida: longevidade com qualidade.

Tem sido assim?

Cada um de nós nasce com uma bagagem genética individual, uma máquina (organismo) programada para fazer as alteraçõe necessárias para a retomada do equilibrio interno, a cada adversidade que surja (de acordo com as possibilidades de cada um) e uma “bateria” com vida útil média pré-estabelecida mas que a cada mudança de rota (reprogramação orgânica) perde um pouco de energia que não será reposta “ad eternum”.

Em outras palavras:

O que nos dá vida é algo indefinível até hoje, mas que mantém o todo orgânico funcionando bem azeitado. E do que essa coisa que passo a chamar de energia se nutre? Daquilo que é a nossa essência: a felicidade, que é a ligação com a criação, com o todo, através da natureza e do amor. Estar feliz é estar em paz, conseguir ver e sentir a beleza à sua volta. Ser capaz de estender a mão a qualquer um que precise. É amar a si mesmo e aos outros. Deixar de pensar como indivíduo, apenas, e ter consciência cada vez maior, de ser parte de um todo infinito. A saúde é um reflexo deste estado. Não somos (e nunca seremos) absolutamente saudáveis (mesmo quando não tivermos doença aparente).

Mas podemos ser saudáveis o suficiente para ter uma vida plena e uma velhice digna de ser vivida.

O que os médicos fazem (e bem), é apenas estabilizar-nos por um tempo. Tempo este maior ou menor, dependendo do quanto já consumimos da nossa“energia”disponível. Vida, em outras palavras, é a energia dentro de nós que mantém funcionante a capacidade de auto-regulação do nosso organismo. Cada vez que ela (energia) diminui, nós médicos entramos em ação e mantemos o corpo funcionando, até que ele se recupere e passe a dar conta sòzinho da tarefa. Mas, não é infinita esta energia. Ela diminui com a idade. Isso já sabemos, uma vez que aos poucos existe uma falência múltipla dos nossos órgãos e morremos. Alguns com mais de cem anos, outros antes dos sessenta.

O que nós, médicos, aprendemos foi como manter o organismo vivo por mais tempo, mesmo que a energia que reste a ele, sòzinha, não seja mais capaz de mantê-lo.

Do outro lado da questão, está a percepção cada vez mais intensa de que essa nossa energia vem de uma espécie de pilha que pode ter recarga sim, mas não ilimitada. Cada vez que ultrapassamos os limites de uso, a energia que sobra vai sendo insuficiente para reequilibrar-nos diuturnamente. E aí o ciclo passa a ser vicioso. Os remédios e cirurgias nos reequilibram, temporàriamente, mas ao longo do tempo, além de ficarmos reféns deles, seus efeitos sobre esta energia que resta não são positivos. É como uma bateria que é recarregada sem estar completamente sem carga: fica viciada e não mais funciona com plena autonomia durante o tempo que foi programada para durar.

Não seria ótimo que aliássemos mais qualidade de vida à longevidade que nos é possível hoje pelos avanços da ciência? Ela (ciência) se agigantou em muitas áreas, mas estagnou em muitas outras. Como não fomos capazes de ver que o nosso novo estilo de vida minaria os esforços em relação à melhoria do estado de saúde, que esperávamos que viesse atrelada à longevidade conquistada?

Pesquisas mostram que vivemos mais sim, mas que esses anos a mais não representam, para a maioria de nós, conforto e bem estar.

Rudiger Dahlke em seu livro “Qual é a doença do mundo – os mitos modernos ameaçam o nosso futuro” comenta que, de 1920 a 2001,quando o livro foi editado, as ditas doenças da civilização aumentaram exponencialmente, segundo a Organização Mundial de Saúde. Em ordem decrescente, a doença de Alzheimer aumentou em oitenta e nove vezes, a esclerose múltipla cinqüenta e nove vezes, o diabetes mellitus cinqüenta e oito vezes e a obesidade, o câncer, as doenças reumáticas e as cardiovasculares au- mentaram, respectivamente, trinta e cinco, vinte, dezessete e catorze vezes,neste período de oitenta e um anos.

Em menos de cem anos tivemos uma deterioração da saúde inimaginável para quem pensava em longevidade caminhando paralela à qualidade de vida. Imaginava-se uma sendo conseqüência natural da outra e ambas fruto do desenvolvimento tecnológico e científico que vivemos neste período.

Estávamos errados. E poucos de nós, como já disse, nos demos conta ou nos importamos com essa nova realidade. Mais do que isso, poucos de nós nos preocupamos em alertar outros sobre ela. E todos os que pensam a saúde integrando corpo, mente e meio ambiente têm vivido e praticado “medicinas” diferentes da medicina oficial, ortodoxa.

É sempre tempo de reflexão!